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FREUD E JUNG POR SLAVOJ ZIZEK

12/03/2020

Luta de classes na psicanálise

 

O ensaísta analisa as tensões entre modernismo e antimodernismo nas obras de Freud e Jung, do qual está sendo lançado no Brasil, pela editora Vozes, o segundo volume das "Cartas".


Slavoj Zizek

O surpreendente no antagonismo que existe entre Freud e Jung é até que ponto ele continua atual: quase um século depois de seu aparecimento, o ódio mútuo continua forte. Nas últimas décadas, a psicanálise foi a grande perdedora para a enxurrada da psiquiatria farmacológica e cognitivo-behaviorista. Enquanto isso, a teoria junguiana continuou firme e até ampliou sua hegemonia no campo da ideologia popular. Jung não é apenas um verdadeiro autor best-seller -pelo intermédio de Joseph Campbell, que o popularizou, ele chegou ao ponto de desempenhar papel formador nas origens do universo de "Guerra nas Estrelas". De onde vem essa popularidade contínua? É simples: Jung promete a reconciliação entre a ciência e a espiritualidade gnóstica, oferecendo uma espiritualidade fundamentada diretamente na pesquisa científica. Em seus escritos, encontramos, lado a lado, referências à física quântica, a pesquisas empíricas, à astrologia, à crença no reino espiritual oculto "mais profundo" etc. O inconsciente junguiano não é mais aquele dos impulsos sexuais reprimidos, mas o da libido dessexuada, dos poderes espirituais que ultrapassam o ego consciente. Para os junguianos, Freud permanece no nível do naturalismo biológico-sexual vulgar, ao passo que Jung reconciliaria o inconsciente com a espiritualidade "mais profunda". Contrariando todas as aparências, não é fácil definir a diferença entre Jung e Freud. A primeira associação que fazemos consiste em dizer: "Sim, é claro -contra Freud, Jung afirmou os arquétipos e o inconsciente coletivo". Quando Freud trata de um caso de claustrofobia, ele sempre inicia a busca por alguma experiência traumática singular que esteja na raiz dessa fobia. O medo de ambientes fechados em geral seria baseado numa experiência de enclausuramento. Esse procedimento freudiano deve ser distinguido da busca junguiana por arquétipos: para Freud, a origem não é uma experiência traumática universal e paradigmática (por exemplo, o medo de permanecer encerrado no útero da mãe), mas alguma experiência singular que, possivelmente, tenha uma ligação inteiramente contingente, externa a um espaço fechado. E se eu tiver testemunhado alguma cena traumática/ que pode ter acontecido em algum outro lugar/ num espaço fechado?

Sistema de raízes
Mas a distinção-chave não é essa. Jacques Lacan afirmava que a verdadeira fórmula do materialismo não é "Deus não existe", mas "Deus é inconsciente". Basta recordar que, numa carta escrita a Max Brod, Milena Jesenska escreveu sobre Kafka: "Sobretudo, coisas como dinheiro, Bolsa de Valores, a administração de divisas, máquinas de escrever são, para ele, inteiramente místicas (o que elas efetivamente são, não apenas para nós, os outros)". Devemos ler essa afirmação contra o pano de fundo da análise feita por Marx do fetichismo de produtos: a ilusão fetichista está em nossa vida social real, não na percepção que dela temos. Um sujeito burguês sabe muito bem que não existe nada de mágico no dinheiro, que ele é apenas um objeto que simboliza um conjunto de relações sociais. Mesmo assim, ele age na vida real como se acreditasse que o dinheiro é uma coisa mágica. Assim, isso nos fornece um insight preciso sobre o universo de Kafka: ele foi capaz de vivenciar diretamente essas crenças fantasmáticas que nós, pessoas "normais", rejeitamos. A "magia" de Kafka é aquilo que Marx gostava de descrever como a "esquisitice teológica" dos produtos. Esse "Deus é inconsciente" de Lacan não deve ser confundido com a tese "new age" junguiana oposta, de que "o inconsciente é Deus". A diferença entre as duas, a diferença da inversão entre sujeito e predicado, diz respeito à oposição entre verdade e mentira. O "Deus é inconsciente" de Lacan aponta para a falsidade fundamental que fornece a unidade fantasmática de uma pessoa: o que encontramos quando vamos buscar no núcleo mais profundo de nossa personalidade não é nosso verdadeiro "self", mas a falsidade primordial ("proton/ pseudos") -todos nós, em segredo, acreditamos no "grande Outro" (essa oposição é exatamente a mesma que existe entre "o sonho é vida" e "a vida é sonho". Enquanto a primeira declaração visa à afirmação nietzschiana do sonho como experiência de vida integral, a segunda expressa a atitude de desespero melancólico à la Calderón: o que é a vida senão um sonho vão, uma sombra pálida, sem substância?). Contrastando com ela, "o inconsciente é Deus" significa que a verdade divina reside na profundeza inexplorada de nossa personalidade: Deus é a substância espiritual interna mais profunda de nosso ser, que encontramos quando penetramos em nosso verdadeiro "self". E, à medida que, nessa perspectiva junguiana, o inconsciente é um grande sistema de raízes escondidas que nutre a consciência, não surpreende que já tenha sido Jung, muito antes de Gilles Deleuze, quem explicitamente o tenha descrito como um rizoma: "A vida sempre me pareceu ser como uma planta que se nutre de seu rizoma. Sua verdadeira vida é invisível, oculta no rizoma. (...) O que enxergamos é a flor, que é passageira. O rizoma permanece" ["Memórias, Sonhos e Reflexões", ed. Nova Fronteira". O pano de fundo religioso dessa distinção é o espaço que separa o universo judaico-cristão daquele do gnosticismo pagão. Quando, pouco antes da ruptura entre eles, Freud confiou a Jung a presidência da Associação Psicanalítica Internacional, ele o fez em parte como estratégia desesperada para cortar o cordão umbilical judaico da psicanálise e torná-la aceitável aos não-judeus -mas a aposta não deu certo. Devemos recordar o famoso dito de Heródoto com relação à Esfinge ("os enigmas dos antigos egípcios eram enigmas também para os próprios egípcios"), que aponta para o vínculo estreito entre o judaísmo e a psicanálise: em ambos os casos, o foco é no encontro traumático com o abismo do Outro que deseja. O encontro do povo judaico com seu Deus, cujo chamado impenetrável os afasta dos caminhos da rotina do cotidiano humano; o encontro da criança com o enigma do gozo do Outro. Essa característica parece distinguir o "paradigma" judaico-psicanalítico não apenas de qualquer versão do paganismo e do gnosticismo (com sua ênfase sobre a autopurificação espiritual interior, sobre a virtude como a realização de nossos potenciais mais profundos) mas também, e não menos, do cristianismo. Afinal, este último não "supera" o caráter de "Outro" do Deus judaico por meio do princípio do amor, da reconciliação/ unificação de Deus e do homem no tornar-se homem de Deus?

 

Jornada interior
Tanto o paganismo quanto o gnosticismo (a reinscrição da postura judaico-cristã no paganismo) enfatizam a "jornada interior" de autopurificação espiritual, o retorno a nosso verdadeiro eu interior, a redescoberta do eu, formando um contraste claro com a idéia judaico-cristão de um encontro traumático externo (o chamado divino lançado ao povo judeu, o chamado de Deus a Abraão, a Graça inescrutável -todos totalmente incompatíveis com nossas características "inerentes", até mesmo com nossa ética "natural" inata).


Kierkegaard tinha razão: é Sócrates versus Cristo, a jornada interior do relembrar versus o renascimento por meio do choque do encontro externo. Nisso reside, também, o espaço último que vai eternamente separar Freud de Jung: enquanto o insight original de Freud diz respeito ao encontro externo traumático com a Coisa que incorpora o gozo, Jung reinscreve o tópico do inconsciente na problemática gnóstica padrão da jornada espiritual interior de autodescoberta.


Assim Freud é totalmente moderno: a noção freudiana de um ato falho (por exemplo, algo que se diz sem querer) enfatiza sua contingência radical. A interpretação freudiana não discerne nele um "significado mais profundo" ("era predeterminado que isso acontecesse comigo"), mas simplesmente deixa visível como, de maneira totalmente contingente, um "desejo" inconsciente se ligou a um elemento ou acontecimento cotidiano e superficial de uma maneira que não possui nenhuma ligação inerente com ele. E, o que é ainda mais radical, os próprios elementos constituintes básicos da identidade do sujeito -os significantes em torno do qual seu universo simbólico se cristalizou, a fantasia fundamental que fornece as coordenadas de seu desejo- resultam de uma série de encontros traumáticos contingentes. A ciência moderna é estritamente correlativa à afirmação da contingência universal (que, é evidente, não se opõe à necessidade causal, mas funciona como seu anverso inerente: a necessidade causal opera sob a forma de regras que regulamentam a interminável interação "contingente" -sem sentido- de elementos). Assim, o que a interpretação freudiana envolve é uma teoria materialista e "moderna" do próprio significado. Quanto a seu status ontológico, o significado é estritamente secundário, uma maneira de "internalizar" o choque traumático de algum encontro contingente anterior. Não existe nenhum "significado mais profundo" por baixo da contingência de acontecimentos; pelo contrário, é o próprio significado que designa a maneira pela qual um sujeito finito consegue lidar com a insuportável contingência do "destino da carne". Por exemplo, quando eu me apaixono profundamente, realmente, parece que "toda a minha vida anterior foi apenas uma preparação para o momento mágico em que conheci você" -e o objetivo da interpretação freudiana é justamente "desconstruir" essa ilusão retroativa, trazendo à tona as características simbólicas contingentes em razão das quais eu me apaixonei. Formando um contraste claro com Freud, a reinscrição junguiana da psicanálise dentro dos limites da sabedoria pré-moderna envolve a ressubstancialização maciça da sexualidade: o masculino e o feminino são postulados como os dois aspectos complementares da psique humana, cujo equilíbrio precisa ser mantido (cada homem precisa redescobrir o aspecto feminino de sua psique e vice-versa) -o exato oposto do construcionismo à moda de Judith Butler, que concebe a identidade sexual como sendo produzida discursivamente pela encenação física e a sedimentação gradual.
 

Sabedoria "new age"
A Profecia Celestina" [ed. Objetiva], de James Redfield, é exemplar no que diz respeito a esse viés antimodernista da sabedoria "new age": postula como a primeira "nova mensagem" que vai abrir o caminho para o "despertar espiritual" da humanidade a consciência de que não existem encontros contingentes. Ou seja, como nossa energia psíquica faz parte da energia do próprio universo, que, em segredo, determina o rumo das coisas, os encontros contingentes externos sempre portam uma mensagem endereçada a nós, a nossa situação concreta. Eles ocorrem como resposta a nossas necessidades e perguntas (por exemplo, se determinado problema está me preocupando e algo inesperado acontece -um amigo que eu não via há muito tempo me faz uma visita, alguma coisa dá errado em meu trabalho, por exemplo-, esse acidente com certeza contém uma mensagem referente a meu problema). Assim, concluindo, vamos dar um exemplo artístico que encena essa passagem de Freud a Jung: o romance de ficção científica "Solaris" [1962", de Stanislav Lem, e sua adaptação para o cinema, feita por Andrei Tarkóvski em 1972. Tanto o livro quanto o filme narram a mesma história: a do psicólogo de uma agência espacial, Kelvin, que é enviado a uma nave espacial semi-abandonada que sobrevoa um planeta recém-descoberto, Solaris, onde fatos estranhos vêm acontecendo recentemente (cientistas enlouquecem, têm alucinações e se matam). Solaris é um planeta cuja superfície é oceânica, fluida e se move incessantemente. De tempos em tempos, ela assume formas reconhecíveis, não apenas complexas estruturas geométricas, mas também corpos infantis gigantes ou edifícios humanos. Embora todas as tentativas de comunicação com o planeta fracassem, Kelvin acaba por compreender que Solaris é um cérebro gigantesco que, de alguma maneira, lê nossos pensamentos e materializa nossas fantasias mais profundas. É aqui que devemos rejeitar a leitura junguiana de "Solaris": o xis da questão de Solaris não é apenas projeção-materialização dos ímpetos internos não reconhecidos do sujeito (homem) -muito mais crucial do que isso é que, para que essa "projeção" possa acontecer, é preciso que a Outra Coisa impenetrável (o planeta Solaris) já exista. Assim, o verdadeiro enigma é a presença dessa Coisa. O problema com Tarkóvski é que fica claro que ele próprio opta pela leitura junguiana, segundo a qual a jornada externa do herói é apenas a externalização e/ou projeção da jornada iniciática interna rumo às profundezas de sua psique. Formando um contraste claro com isso, o livro de Lem focaliza a presença inerte e externa do planeta Solaris, dessa "Coisa que pensa" (usando a expressão de Kant, que cabe perfeitamente aqui): o xis do livro é justamente que Solaris permanece um Outro impenetrável, sem nenhuma comunicação possível conosco. É verdade que ele nos remete a nossas fantasias mais profundas e negadas, mas a questão subjacente a esse ato permanece totalmente impenetrável: por que ele o faz? Como resposta puramente mecânica? Para brincar conosco de maneira demoníaca? Para nos ajudar -ou forçar- a confrontar nossa verdade negada?

Flutuações políticas
Esses indicativos breves deixam claro o que realmente está em questão na oposição Freud e Jung. Sim, é uma disputa entre materialismo e idealismo -só que "materialismo", neste contexto, não significa naturalismo vulgar, mas a afirmativa plena da contingência radical de nosso ser. "Freud contra Jung" simboliza a modernidade contra o falso obscurantismo pós-moderno. E, paradoxalmente, é o próprio "essencialismo" de Jung que o expõe a flutuações políticas acidentais. No início dos anos 1930, quando Hitler chegou ao poder, Jung foi pró-nazista por um curto período: ele assumiu a presidência da Sociedade Alemã de Psicologia, para coordená-la com as exigências dos "novos tempos".


Mais sinistra, porém, do que esse "erro" talvez tenha sido a facilidade com que Jung mais tarde mudou sua posição e assumiu postura antinazista, usando basicamente os mesmos termos e conceitos por meio dos quais, anteriormente, tinha legitimado o nazismo.


Slavoj Zizek é filósofo esloveno, professor do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É autor de "Eles Não Sabem O Que Fazem" (Jorge Zahar) e "Um Mapa da Ideologia" (Contraponto). Escreve todo mês na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Clara Allain.

 

Publicado originalmente por: Folha de São Paulo> https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0707200211.htm

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