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A PSICANÁLISE E O INDIVÍDUO GLOBALIZADO

28/11/2019

Desde o dia 4 de setembro, a Biblioteca Nacional da Argentina abriga o Centro Argentino de História da Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria. Trata-se de um arquivo que, ao reunir manuscritos, cartas, fotografias e obras de nomes importantes da psicanálise naquele país, pretende se tornar uma referência em pesquisas fundamentadas sobre a história dessa prática que é tão difundida na Argentina.

 

“Aqui há mais psicólogos que dentistas, deve ser o único país do mundo em que a saúde mental importa mais que a saúde dental”, disse o diretor do “Centro Psi”, Alejandro Dagfal, ao Clarín, lembrando que a Argentina é o país com a maior concentração de psicanalistas no mundo: são 145 profissionais para cada 100 mil habitantes. Em Buenos Aires, há um psicólogo para cada 120 pessoas – sendo que 90% desses profissionais possuem orientação psicanalítica.

 

A inauguração do espaço contou com a presença da historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, que durante a conferência “A psicanálise como revolução do íntimo” afirmou que a prática deve reinventar-se para não correr o risco de desaparecer “em uma era que relegou o psíquico e a palavra para exaltar o químico”.

 

Na ocasião, Roudinesco criticou o avanço de psicoterapias alternativas, que em sua visão “residem na ideia de que a vontade individual é mais potente que o peso do passado e determina o destino do sujeito”, além de estarem ligadas a processos de medicalização.

 

“Passamos, assim, de uma situação histórica onde a psicanálise oferecia meios para curar sua subjetividade desfeita para um estado globalizado em que o sujeito, convertido em um depressivo, já não quer saber o que se passa em seu inconsciente. Este sujeito pós-moderno reivindica práticas sexuais, experiências individuais e desempenhos, e não uma subjetividade, como pensa a psicanálise: os pacientes de hoje passam trinta anos provando um pouco de tudo, se enchem de terapias e voltam ao divã sem ideia de quem são”, disse. “Reprovam a psicanálise por nem sempre oferecer uma cura rápida, mas esses tratamentos superficiais legaram apenas promessas de felicidade.”

 

Frente a isso, defendeu que a psicanálise deve voltar a Freud e mudar o modo de formação dos terapeutas, que deveriam receber os pacientes cara a cara (e não deitados em um divã) e tratar qualquer pessoa, sem distinções. Também ressaltou a necessidade de a comunidade psicanalítica reformular seus enfoques históricos por meio de um diálogo com outras áreas do conhecimento, como a história, a filosofia e as ciências sociais.

“Centro Psi”

No Centro Psi, já estão guardados e disponíveis para consulta pública documentos que retomam a história da psicanálise argentina, como livros e documentos dos psicanalistas Arnaldo Rascovsky, Enrique Butelman, José Bleger e Oscar Masotta – conhecido por espalhar o pensamento lacaniano entre os falantes de castelhano. “Lacan está mais vivo na Argentina do que na França”, brincou Alejandro Dagfal em entrevista ao Clarín.

 

Há, também, doações privadas recentes, como a biblioteca pessoal de Celes Cárcamo, um dos fundadores da Asociación Psicoanalítica Argentina e difusor das ideias da filha de Sigmund Freud, Anna Freud, no país – todo o material do autor foi cedido ao Centro por María Cárcamo, sua filha.

 

Para evitar que o conhecimento fique restrito a psicanalistas de formação, o arquivo inclui também documentos de não-psicanalistas, como o jornalista Rodolfo Walsh, o líder esquerdista John William Cooke e o escritor e historiador David Viñas, por exemplo, que se debruçaram sobre o tema ao longo de suas vidas.

 

Isso porque, além de promover investigações sobre a história da psicanálise – e preservá-la em um só lugar -, o Centro deve fazer um esforço para difundi-la ao público leigo, que não necessariamente teve contato acadêmico com o tema, mas que se interesse por conhecê-lo de forma mais aprofundada.

 

Para Roudinesco, essa popularização de arquivos sobre psicanálise é fundamental para aprofund

 

ar os debates sobre doenças mentais, que crescem mundialmente, e para evitar que elas sejam tratadas como simples problemas químicos ou de fácil solução: “A psicanálise viveu muito tempo com a ideia de que tudo era psíquico, e agora, vive achando que tudo é químico. Isso necessariamente precisa ser reformulado”, disse ao jornal argentino Télam.

 

A única saída para a angústia, na visão da autora, é uma análise mais profunda – a psicanálise. “Essas terapias alternativas são resultado de uma época marcada pela individualidade narcisista, que se define pelo culto à felicidade, pelo interesse extremo pelo corpo, pela busca da saúde perfeita e pela superação de qualquer frustração sexual”, disse, na conferência que ministrou. “Todos os historiadores já notaram que substituímos Édipo por Narciso.”

 

Publicado originalmente por: Revista Cult> https://revistacult.uol.com.br/home/a-psicanalise-deve-reinventar-se-para-sobreviver-diz-roudinesco-em-conferencia-na-argentina/

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