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COMO LIDAR COM AS ATUAIS RELAÇÕES AFETIVAS?

14/08/2019

"É incrível como ainda há psicanalistas que são carpideiras das obrigações simbólicas perdidas, lamentando a fluidez de um mundo que estaria se desmanchando e, aí, todo mundo puxa o lenço."

 

Em artigo, o psicanalista Contardo Calligaris reflete sobre a condicionalidade das relações modernas. Ficamos nas relações, porque elas valem a pena. A possibilidade de partir ou até mesmo de respeitar o outro é um princípio básico nos namoros e casamentos contemporâneos, mas como fica esse pressuposto em outras relações, como pais e filhos, professores e alunos? Como funciona a condicionalidade quando estendida a todas as relações?

 

Amor contemporâneo: que seja eterno enquanto valer a pena

Há um traço de nossa cultura que nos torna, necessariamente, ficcionistas. E esse traço é a condicionalidade das relações: é uma constatação que fazemos com facilidade quando se trata de casamento. O laço do casamento existe e dura à condição de que haja amor. A experiência do amor dura se valer a pena.

 

É normal que seja assim porque é essa condicionalidade que introduziu a modernidade com o triunfo dos afetos e da experiência sobre norma e tradição. Romeu e Julieta, nesse ponto de vista, é o primeiro grande texto moderno, poderíamos dizer.

 

O problema é que essa condicionalidade se estende a todo campo das relações que não são comandadas por princípios hierárquicos estabelecidos, mas pela qualidade da experiência, sobretudo da experiência afetiva.

Por exemplo: “me respeite porque eu sou seu superior" ou “sou mais velho e mais sábio" não funcionam. Ser meu superior... Isso se ganha. Ou seja, em qual experiência minha você conquistou e mereceu o meu respeito e minha obediência? Essa é, também, uma constatação que aceitamos mais ou menos facilmente: a condicionalidade da hierarquia.

 

A coisa complica quando ela é aplicada a relações pelas quais temos uma espécie de nostalgia, por exemplo: “honre o pai e a mãe" também não é mais propriamente um mandamento, o mínimo para que valha é exigível que eles, o pai e a mãe, me proporcionem uma experiência de maternagem e de paternagem que valham a pena.

 

É incrível como ainda há psicanalistas que são carpideiras das obrigações simbólicas perdidas, lamentando a fluidez de um mundo que estaria se desmanchando e, aí, todo mundo puxa o lenço.

 

Será que não escutam que é tarde para o luto das obrigações simbólicas perdidas? E é, francamente, patético imaginar que o bem-estar de seus pacientes dependa de injeções cavalares da própria ideia tradicional de uma organização social pré-moderna. Eu não sei, para mim é um mistério.

 

Publicado originalmente por: Fronteiras do Pensamento>https://www.fronteiras.com/artigos/amor-contemporaneo-que-seja-eterno-enquanto-valer-a-pena

 

 

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