201 CLITÓRIS, A SEXUALIDADE FEMININA E MARIE BONAPARTE


Os 201 clitóris de Marie Bonaparte


RESUMO

Apresentamos um panorama da doutrina bonapartista em torno da sexualidade da mulher, por meio do qual damos destaque especial ao papel do clitóris no desenvolvimento da psicossexualidade da mulher e a subsequente tese da causa anatômica da frigidez. O pensamento bonapartista obedece a três veios principais de pensamento: o veio biologicista, o psicanalítico e o etnológico. O procedimento de análise sistemática dos textos nos possibilita demonstrar a importância atual que o pensamento bonapartista adquire na psicanálise.

Palavras-chave: Clitóris, Frigidez, Mulher, Psicanálise.


Introdução

Para introduzir partimos de um importante trecho da obra freudiana sobre a sexualidade da mulher, em que ele afirma:


A frigidez sexual das mulheres, cuja frequência parece confirmar esse descaso, é um fenômeno ainda insuficientemente compreendido. Às vezes, é psicogênico e, nesse caso, acessível à influência; em outros casos, porém, sugere a hipótese de ser constitucionalmente determinada e, até mesmo, de existir um fator anatômico coadjuvante (FREUD, [1933] 1976, p. 131).


Essa passagem nos elucida duas principais razões: primeiro, testemunha a influência que o pensamento bonapartista teve no pensamento freudiano; segundo, constitui um verdadeiro resumo dos principais pontos de vista bonapartista sobre a frigidez feminina. Sabemos que a princesa Marie fora analisada pelo fundador da psicanálise, o que resultou no surgimento de uma grande amizade entre os dois (BERTIN, 1989), e, consequentemente, a levou a assumir a carreira de psicanalista e abraçar a causa freudiana na sua difusão e propagação, principalmente no território francês. Seu protagonismo não implicou somente a retirada do pai da psicanálise e de parte de sua família da Áustria nazista, nem em preservar e traduzir inúmeros textos da psicanálise.1

Em 1926 juntamente com outros contribuiu com a fundação da Société Psychanalytique de Paris (BERTIN, 1989; ROUDINESCO, 1994). A princesa Marie também financiou a criação da Revue Française de Psychanalyse, órgão oficial da sociedade, e em 1934 é inaugurado o Instituto de Formação, o então Instituto de Psicanálise, órgão de ensino da sociedade, localizado na época no Boulevard Saint-Germain, graças à sua generosidade.


Durante muitos anos a princesa Marie ensina no respectivo Instituto, e entre os principais temas abordados por ela se destacam a teoria dos instintos, a frigidez feminina e sobre a interpretação dos sonhos.


Feita essa súmula biográfica, afiançamos que o presente artigo tem como objetivo esclarecer o principal trabalho escrito por ela sobre a sexualidade da mulher (BONAPARTE, 1967), pois acreditamos que é relevante no cenário contemporâneo dos estudos feministas e de relações de gênero. Essa obra faz parte de um conjunto maior de estudos psicanalíticos da autora sobre o tema (NARJANI,2 1924; BONAPARTE, 1952a, 1952b, 1952c).


A característica marcante no estilo dos trabalhos bonapartianos é a mistura de termos e conceitos da biologia com os conceitos da psicanálise. A autora constrói um verdadeiro aparato de termos anfíbios que denotam a mistura dos dois campos de saber (AMOUROUX, 2012).


Se remontarmos à época em que se concentra a maior parte da publicação dos seus escritos sobre a sexualidade feminina, somos levados a reconhecer que ela está na contramão do fenômeno chamado de giro linguístico, ocorrido nas décadas de 1950 e 1960.


O giro linguístico significou, entre outros aspectos, que a linguagem adquiriu importância cada vez maior nas ciências sociais e humanas como meio de construção de ferramentas para a realização de pesquisa social, e um exemplo de construção de uma ferramenta desse tipo é a Análise do Discurso.

A partir de, então, ocorre uma quebra na separação hierárquica entre a linguagem cotidiana e a linguagem científica (esta era até então considerada possuidora de maior valor).


O giro linguístico foi um giro no sentido de ter sido uma mudança radical graças ao seu questionamento se a linguagem cotidiana é suficiente para explicar o mundo e a vida real (IÑIGUEZ, 2005a, p. 55).


Portanto, esse giro abre caminho para as dimensões em que o trabalho da ciência passa a ser igual a qualquer outra prática social e para a fundamentação epistemológica da ciência social crítica (IÑIGUEZ, 2005b), por exemplo, aquela empreendida por Rorty.


A psicanálise não ficou imune ao giro linguístico, e Lacan (1998) se contrapõe ao caminho que a princesa Marie trilha para a psicanálise, ou seja, a aliança com a biologia. Então, ele abraça com tudo os estudos da linguística, principalmente os realizados por Ferdinand de Saussure e Roman Jakobson, na sua releitura de Freud, como atestam seus seminários da década de 1950 e 1960, o que, anos mais tarde, culminou na invenção da ‘psicanálise lacaniana’.


Laplanche (1992; 1999; 2008; 2015) também é outro exemplo de psicanalista importante na França que, sem sombra de dúvidas, faz duras críticas ao biologicismo em psicanálise, que ele nomeia como “desvio biologizante” (LAPLANCHE, 1999) e como o movimento ptolomaico na chamada “revolução copernicana” em psicanálise (LAPLANCHE, 2008).


As críticas laplancheanas em grande parte denunciam o uso mitológico da biologia na obra freudiana, ponto de vista que consideramos importante no nosso resgate histórico-epistemológico das obras bonapartianas. O apego à biologia no pensamento psicanalítico bonapartiano pode levar a um caminho onde tudo que é da ordem do simbólico ou do pulsional fica comprometido com o real do biológico.

Não pretendemos neste artigo esgotar as múltiplas possibilidades de discussão sobre esse tema, mas consideramos não deixar esses fatos alheios a nossa discussão. Assim, a psicanálise e a biologia não são os únicos eixos de pensamento da princesa Marie. O aspecto etnológico e antropológico também é muito importante em suas pesquisas, pois ela sempre busca dados das pesquisas antropológicas, e sabemos da sua forte ligação e interesse pelas pesquisas do antropólogo Bronislaw Malinowski (BERTIN, 1989), principalmente nos seus estudos sobre os ritos em tribos primitivas de iniciação das jovens, que incluem a excisão do clitóris.


Panorama: sobre os 200 clitóris

No artigo de Narjani (1924) encontramos a polêmica pesquisa bonapartiana com 200 mulheres, tomadas aleatoriamente na população de Paris. Através de um exame ginecológico minucioso ela mediu a distância entre o clitóris e o orifício uretral e constatou uma variação de 1 a 4 cm. Então, com base no exame e nas entrevistas com essas mulheres em torno do orgasmo, deduz que, quanto maior a distância, maior a probabilidade de a mulher ser acometida de frigidez por causa anatômica. E a solução estaria na cirurgia de aproximação, conhecida como operação Halban-Narjani.


Tomadas as devidas críticas e o distanciamento necessário na análise da tese bonapartista sobre a cirurgia da frigidez, pretendemos nesta oportunidade esclarecer que, embora cirurgia da frigidez tivesse caído em desuso, a sua tese da causa anatômica da frigidez é hoje reconhecida cientificamente por inúmeros trabalhos na área da medicina e das ciências biológicas (WALLEN; LLOYD, 2008; 2011), assunto que retomaremos mais adiante.


No seu longo estudo entre 1929 e 1942, a princesa Marie se interessa particularmente pelos trabalhos que descrevem práticas sexuais exóticas em povos primitivos. Tendo como base os trabalhos antropológicos como os de Géza Róheim, Felix Bryk, Marcel Mauss, entre outros, ela focaliza seu interesse sobre a excisão ou clitoridectomia em tribos primitivas e passa a se interessar pela sexualidade e pelo psiquismo das mulheres excisadas.

No seu célebre texto sobre essa questão (BONAPARTE, 1952c) ela compara e relata vários casos clínicos de mulheres europeias que sofriam de masturbação excessiva e cujo tratamento fora feito pela excisão, mas em muitos casos esse procedimento não alcançara o objetivo almejado, ou seja, cessar a masturbação na mulher.