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NOSSO SOFRIMENTO, NOSSA LIBERDADE, NOSSA SEGURANÇA

13/08/2019

LIBERDADE E SEGURANÇA: UM CASO DE AMOR E ÓDIO | ZYGMUNT BAUMAN

 

Sigmund Freud escreveu, em 1929, sem que nada o tenha contradito seriamente desde então, que “estamos organizados de tal modo que só podemos gozar com intensidade o contraste e muito pouco com o estado." Freud cita o parecer de Goethe em apoio do seu – “Alles in der Welt läßt sich ertragen, / Nur nicht eine Reihe von schönen Tagen" (tudo no mundo pode perdurar / exceto uma sucessão de dias prósperos) - mesmo que isso, “talvez, seja um exagero". 

 

Enquanto o sofrimento pode ser uma condição duradoura e contínua, a felicidade, esse "gozo intenso", é apenas percebida como uma experiência momentânea e fugaz, que se experimenta do início ao fim em um instante quando o sofrimento se detém. "Muito menos difícil – sugere Freud – é experimentar a miséria".

Na maioria do tempo, então, sofremos, e o tempo inteiro nos importuna o possível sofrimento causado por ameaças permanentes que sobrevoam sobre nosso bem-estar.

 

Há três causas que tememos e de onde pode vir o sofrimento: a supremacia da natureza, a fragilidade dos nossos corpos (bem como dos outros seres humanos) e – de maneira mais precisa, uma vez que acreditamos muito mais na possibilidade de melhorar as relações humanas do que em subjugar a natureza e acabar com as fraquezas do corpo – "a insuficiência das normas que regulam os vínculos recíprocos" entre os seres humanos: “a família, o Estado e a sociedade".

 

Visto que o sofrimento e o horror ao sofrimento são uma companhia permanente na vida, a ninguém deve surpreender que o processo civilizatório – a prolongada e talvez interminável marcha para um modo de estar-no-mundo que seja mais hospitaleiro e menos perigoso – esteja focado em localizar e barrar estas três fontes da infelicidade humana.

Para os seres humanos se libertarem de seus medos – e a sociedade deve impor restrições aos seus membros –os homens e as mulheres precisam se rebelar contra estas restrições para continuarem avançando no sentido da felicidade. Não é possível regular a terceira fonte de sofrimento humano até que ela desapareça.

 

A interface entre a busca da felicidade individual e as condições de vida impossíveis de serem usurpadas permanecerá para sempre um cenário de conflito. Os impulsos instintivos do ser humano inevitavelmente colidem contra as exigências da civilização empenhada em combater e superar as causas do sofrimento humano.

 

 

É por isso que a civilização é uma transação, insiste Freud: para conseguirem algo dela, os seres humanos têm que renunciar a alguma coisa. Tanto os bens que são conquistados como aqueles que são recebidos em troca são altamente valorizados e desejados com fervor; portanto, cada sucessiva fórmula de transação não é mais do que um arranjo de passagem, o produto de um acordo que nunca é completamente satisfatório para qualquer das partes deste antagonismo que arde perpetuamente.

 

A discórdia diminuiria se fosse possível ao mesmo tempo os desejos individuais e as exigências sociais. Mas isso não irá acontecer.

Para conseguir uma vida satisfatória – ou suportável para ser exato –, são tão imprescindíveis as liberdades para agir de acordo com os impulsos, urgências, inclinações e desejos quanto as restrições impostas por razões de segurança, já que segurança sem liberdade é a escravidão, enquanto a liberdade sem segurança desataria o caos, a desorientação e uma incerteza perpétua que resultaria na incapacidade para atuar resolutamente. Porém, ambas são e permanecerão para sempre irreconciliáveis.

 

A partir dessas premissas, Freud chegou à conclusão de que os sofrimentos e angústia psicológica provêm, em sua maioria, da renúncia de uma parte considerável da liberdade em troca de um aumento na segurança. Esta liberdade é a principal vítima do "processo civilizatório" bem como o maior descontentamento da vida civilizada.

 

Esse é o veredicto pronunciado por Freud, lembre-se, em 1929. Pergunto-me se essa conclusão teria saído ilesa, caso Freud a tivesse emitido hoje, mais de oitenta anos depois... Eu duvido.

 

Publicado originalmente por: Fronteiras do Pensamento> https://www.fronteiras.com/artigos/zygmunt-bauman-liberdade-e-seguranca-um-caso-de-amor-e-odio

 

 

 

 

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