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A SOLIDÃO DO PÂNICO

 

 

A experiência do pânico tem tido uma freqüência que não deixa de nos intrigar. O que vem se passando para que a pronúncia da palavra pânico venha ocupando lugar de destaque nas descrições dos sujeitos de suas vivências na atualidade. Quais seriam os componentes culturais e psíquicos ligados a essa experiência?

 

Parece que os relatos da vivência de pânico envolvem algo de uma profunda solidão, que sempre marca também a relação com os fantasmas que nos habitam, fantasmas esses que descrevem em última instância a presença do outro em nós.

 

Em outras palavras, falar da relação com nossos fantasmas significa algo ligado a um nos remeter a um outro tempo, não de uma perspectiva cronológica, mas de um tempo remanescente, reminiscência viva da presença de relações que se ancoram no que Freud se refere de modo amplo como o infantil. Com esse termo o fundador da psicanálise buscava apontar para a presença contínua em nossas vidas de moções, formas de vínculos primevos e objetos que fundaram, em sua singularidade, a subjetividade de cada um de nós.

 

Podemos perguntar o que isso tudo tem a ver com o tema que propusemos da solidão associada à vivência do pânico. Porque falamos da solidão ligada ao pânico? A experiência de solidão frente às reminiscências de nosso infantil é diferenciada no sentido do desamparo que a acompanha e nos paralisa...

 

No processo de vir a ser humano a que chamamos subjetivação, somos constituídos e atravessados por uma complexa teia de significados postos pela cultura, enquanto ambiente onde tal processo se desenrola. Nesse ambiente, o encontro com o outro é condição fundamental para a subjetivação do sujeito. No entanto, o encontro com o outro acontece mais precisamente em torno do enigma em que se constitui para o sujeito o encontro com o desejo do outro, em outras palavras em qual lugar somos postos pelo e no desejo desse outro...

 

Busco com essas considerações oferecer um panorama sobre o papel desse outro na subjetivação do sujeito, porquanto penso ser fundamental abordarmos um pouco mais a importância do outro no psiquismo no que diz respeito a definirmos melhor a especificidade da solidão na vivência do pânico. Como assim?

 

Nossa formação enquanto humanos inseridos em um campo cultural é sustentada pelo que em psicanálise chamamos sistema de ideais. Por sua vez, o sistema de ideais é, por assim dizer, herdeiro de todo um campo de ação daquelas reminiscências que mencionamos acima, sendo portanto constituído em seu cerne pela  presença do outro. Dessa forma o sistema de ideais é a marca, por aquela presença, da cultura no sujeito humano.

 

Em mais de uma vez, Freud nos diz da importância do investimento amoroso, em termos das condições de criação e sustentação da confiança do sujeito no outro e no mundo humano. O pânico nesse sentido se coloca no momento mesmo em que, por vários motivos, se rompem os campos de possibilidade de relações amorosas com o outro. As possibilidades e as formas de vínculo amoroso do sujeito são determinadas pelos fantasmas inconscientes que constituem o cerne do sistema de ideais, do que podemos depreender assim que as bases da vivência de pânico estejam em absoluta dependência da forma vigente de relação do sujeito com seu sistema de ideais.

 

Podemos imaginar a profunda importância psíquica do sistema de ideais enquanto, em sua ligação com a cultura, possa promover o encaminhamento das complexidades de nossa relação com nossos fantasmas. Do contrário, vislumbramos algo da angústia que pode nos inundar quando esse sistema tem problemas ao encaminhar pelas vias simbólicas da cultura o que nossos fantasmas fizeram de nós, nos levando a um encontro sem sua mediação eficaz com a experiência da impotência e do desamparo, solidão com toda a tonalidade de fragmentação e destruição de si.

 

 

 

 

 

 

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