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A SINGULARIDADE DE SI

 

 

Certamente das maiores tarefas decorrentes da condição humana é a da busca pelo sujeito daquilo que constitui sua singularidade. Principalmente em um campo cultural onde cada vez mais parecemos buscar em definições generalistas algo que nos possa servir de muleta de identificatória, algo que possa de alguma forma dizer quem somos.

Ocorre que na modernidade, em resposta ao enigma da pergunta sobre quem somos, encontramos uma imensidão de respostas que seriam muito mais afeitas ao que somos do que a quem somos.

 

Quando nasce, se assim podemos dizer, uma vaca sabe que é uma vaca. Nós, seres humanos, temos um grande trabalho na busca, e nessa busca a construção, de quem somos. No próprio caminho atrás de quem se é, vamos construindo essa resposta, na medida em que somos seres constituídos por e mergulhados em determinada cultura, concebida como conjunto simbólico absolutamente fundamental no que tange ao processo do tornar-se humano de cada um de nós, que a psicanálise chama processo de subjetivação.

 

Nesse caminho vamos encontrando possibilidades que se espera sejam sempre renováveis em termos das descrições sobre nós mesmos, descrições que se valem sempre do repertório simbólico disponibilizado pela cultura. As descrições que podemos fazer de nós mesmos expressam algo essencial, na medida em que são amostras instantâneas daquele momento do posicionamento do sujeito frente à sua própria história emocional.

 

 

 

Preocupa percebemos que no repertório atual da cultura figuram representações gerais do humano que nos apresentam como mero resultado de uma suposta maquinaria que se estaria em vias de esclarecer completamente os mecanismos; e uma vez isso feito seríamos seres em que o campo de mistérios sobre nossa existência seria dissipado... Afirmar que somos seres de mistério não é aqui uma apologia do desconhecimento e da ignorância. Trata-se de perceber que, como a psicanálise nos ensina, somos mais do que pensamos ser, marcando o fato que nosso psiquismo é dinâmico de modo que não podemos, a não ser à custa de uma psicopatologia, sustentarmos representações totais e últimas sobre o fomos, somos e podemos ser.

 

Podemos ver aqui uma das grandes contribuições psicanalíticas em torno do sofrimento humano. Não sofremos como resultado de um déficit seja ele hereditário, cognitivo, moral ou outro qualquer. Sofremos de nossas certezas..., paradoxalmente ainda mais acalentadas quanto mais o sofrimento nos colocar a tarefa de reconfigurar nossas descrições de nós mesmos, do mundo e do outro.

 

Enfim, sofremos como efeito das chantagens que inconscientemente fazemos conosco mesmo no sentido de abdicar da responsabilidade frente ao grande percurso em torno de nosso desejo, algo que marca nossa singularidade e que não é redutível a qualquer afirmação de si tendo como referencia representações generalistas às quais o sujeito busca aderir no sentido daquela abdicação. A psicanálise apontou assim a suprema importância desse percurso do sujeito em relação a si mesmo e de sua intransferibilidade a quem quer que seja.

 

A abdicação da busca da singularidade de si tem efeitos psíquicos amplos, dentre outros o congelamento do sujeito em uma posição frente sua história emocional que chamamos neurose, onde o que tentamos expurgar de nós mesmos sempre retorna pela porta dos fundos de nossos sintomas. Sofrimento do qual queremos nos livrar, mas que mantemos fortemente na medida em que é o pagamento que fazemos no sentido de não entrar em contato com os enigmas que nos constituem.

 

A neurose pode ser vista assim como o que colocamos no lugar da vivência possível de que somos mais do que pensamos ser e de que podemos, talvez, sofrer por algo novo, sofrimento desejado e sempre temido. Nossa neurose nos oferece o conforto de ser uma companheira de alguma forma já conhecida...

 

 

 

 

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