A PSICANÁLISE NA CULTURA



Na modernidade parece que caminhamos a passos largos rumo a uma burocratização da vida que não deixa de surpreender. No melhor estilo bovino que vamos vestindo no sentido de um trilhar a vida, fazendo um esforço imenso para que perca o que a define em sua grandeza e mistério, sua imprevisibilidade.


A psicanálise se defronta hoje com questões ligadas a novas formas de sofrimento psíquico às quais é chamada a responder na clínica contemporânea. Nesse esforço, além de estudos ligados às novas configurações de conflitos psíquicos, a psicanálise também aposta em seu ferramental teórico no sentido de pensar dinâmicas culturais e sociais, no que o psicanalista francês Jean Laplanche já denominou de esforço de psicanálise extramuros.


Vários analistas vêem contribuindo com estudos nesse sentido, além naturalmente de seus respectivos trabalhos clínicos e teóricos no enfrentamento de problemáticas trazidas por sujeitos singulares, inseridos em um campo cultural que também buscam compreender.

Desde sua fundação por Sigmund Freud, a psicanálise veio se constituindo por um lado enquanto movimento institucional e por outro também enquanto fato de cultura. Enquanto fato de cultura, é importante apontar para o fato de que ela inaugurou e constituiu historicamente uma nova concepção do sujeito humano, marcado pela sua aposta na existência de um inconsciente dinâmico que configura as formas singulares em cada um de nós de sentir, pensar, agir, enfim, como nos inserimos nas relações e no mundo humano. Fato de cultura também na medida em que ofereceu aos sujeitos na modernidade, através da difusão de seus conceitos e vocabulário no ambiente cultural, novas possibilidades de pensar sobre si mesmo, seus impasses, conflitos, dentre outras vivências.


Não podemos subestimar o impacto cultural que a psicanálise exerceu desde sua fundação e ao longo de toda a sua história até nossos dias, em que ela já conta por volta de 110 anos de idade, na medida em que encontramos dificuldade em mencionar algum campo cultural humano em que ela não tenha tido influência, tal como por exemplo na pintura, escultura, literatura, filosofia, dentre outras manifestações do psiquismo humano. Ao longo desses anos ela foi e é objeto de interesse não somente por aqueles que buscaram se tornar psicanalistas, mas também por toda uma gama de grandes mentes em vários campos ao longo do século vinte, tais como Albert Einstein, Pablo Picasso, Thomas Mann, H.Hesse, Salvador Dali, dentre muitos outros. Não foi certamente à toa que em 1936, quando de seu aniversário de 80 anos, Freud recebeu uma carta de congratulações por sua obra tendo mais de 140 signatários do porte dos mencionados acima.


No interior do movimento psicanalítico, a produção teórica de grandes nomes tais como Sandor Ferenczi, Melanie Klein, Donald Woods Winnicott, Wilfred Ruprecht Bion, Jacques Lacan, Ogden, Bowlby, Karen Horney, Françoise Dolto, além de muitos outros, fizeram com que a psicanálise de muitas formas pudesse responder ao sofrimento do sujeito humano ao longo de mais de um século de vida, reeditando a saga freudiana em busca dos mistérios do existir humano, da dor que esse existir parece implicar.


Pensar a psicanálise na cultura significa apontar no que ela pode nos remeter e ajudar a construir uma vida retirada da burocracia do pensar e do agir contemporâneo, onde a subjetividade de cada um de nós cabe menos a cada dia em nome de uma suposta racionalidade onde nossa dinâmica afetiva somente tem lugar enquanto psicopatologia...

A saga que Freud inaugura, retomada pelos seus seguidores, diz respeito a uma sustentação do mistério que envolve o psiquismo, objeto mesmo da psicanálise, a existência e ação do inconsciente na mente humana, onde quanto mais descobrimos, mais parece sobrar a descobrir. A psicanálise sempre tributária de Shakespeare...





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