Please reload

A MORAL DO ESPETÁCULO

 

 

Temos presenciado toda uma série de fenômenos na modernidade que, sem dúvida, merecem nossa maior consideração na medida em que apontam para questões espinhosas e preocupantes, sob o prisma do que podemos dizer de nossos ideais hoje e suas relações e mudanças em relação a uma tradição.

 

O conjunto do que chamamos tradição nos remete a uma idéia de autoridade conferida pelo passado. A autoridade sempre teve o papel, por assim dizer, de uma ponte do passado em relação ao presente, tendo sido sempre investida de expectativas relacionadas a seu poder em oferecer às novas gerações luz frente à imprevisibilidade do futuro.

 

A relação da autoridade com o passado e suas possibilidades de informar o futuro nos leva a perguntar a respeito do que presenciamos desde há algumas décadas sobre seu papel na atualidade. De que forma e como ela hoje subsiste? Como podemos circunscrever sua presença e atuação?

 

Ouvimos comentários sobre como a autoridade teria acabado; sobre como nos tempos atuais não temos mais o que possa nos guiar; sobre certa nostalgia de tempos onde supostamente o mundo ainda não tinha se perdido...

 

Penso que os nichos onde a autoridade no passado encontrava seu lugar, qual sejam, pais, família, religião, dentre outros mais, foram sendo deslocados em sua presença de autoridade frente ao sujeito, sendo que outros foram historicamente sendo postos como discursos de autoridade. Espero, em outro momento, poder me deter com mais vagar nessa mudança e o que a condicionou. Para os propósitos do assunto a que hoje me atenho marcar tal mudança nos nichos da autoridade é suficiente.

 

 

 

A mídia tem hoje, dentre outros agentes sociais, um grande papel no campo da autoridade que outrora foi conferido àquelas instituições. No entanto, o que se põe como autoridade aqui tem uma qualidade bastante diferente do que nos referimos anteriormente como ponte, no presente, entre o passado e o futuro.

 

No corpo midiático, temos o ícone maior do que podemos chamar autoridade moderna, a figura da chamada celebridade. Correndo em paralelo com o que podemos chamar de moral do espetáculo, em sua apresentação do mundo como um conjunto de imagens fragmentárias sem maior relação interna, e da vida como entretenimento, situando o sujeito como “”turista de passagem”, sem comprometimento com uma realidade que ele já não consegue apreender, tal figura encarna uma figura de autoridade absolutamente diversa do que constituiu a definição de autoridade colocada acima, no movimento mesmo em que as celebridades formadas pela moral do espetáculo tem data de validade posta de antemão, validade essa sempre precária, sem a menor pretensão de cumprir o que as figuras de autoridade outrora sempre cumpriram.

 

Quem ainda não foi cooptado pelo cinismo que sustenta a moral do espetáculo e ainda tem um pouco de paciência para ouvir o que tais celebridades têm a nos dizer fica certamente com uma estranha impressão, ou seja, a pergunta de porque se dá tanto espaço midiático a quem, ou o que, nada nos tem a dizer...

 

Os sentimentos de inveja e desprezo pelas celebridades nos mostra o conflito psíquico dos sujeitos modernos, encarnando internamente os paradoxos da moral do espetáculo, que acabam nos levando a buscar em figuras da publicidade algo do que só podemos encontrar no encontro com o outro, outro próximo esse que acaba sendo desvalorizado como interlocutor emocional na comparação com a celebridade distante que a nós somente se dirige quando se trata de vender alguma coisa!

 

Vender assim a idéia da ética moderna, se assim a podemos chamar, de que o sucesso hoje é absolutamente desvinculado do trabalho, e que com alguma sorte uma câmera em algum lugar pode te mudar o destino... Voltamos em outro momento, com Jankelévich, lembrando que o tempo nunca dá, somente empresta!

 

 

 

Please reload

deixe seu comentário abaixo

INSTITUTO ESFERA

Rua Amador Bueno, 1300, Centro

Ribeirão Preto - SP | (16) 3625-0656