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A MODERNIDADE DO TÉDIO

 

 

Podemos nos perguntar o que ocorre em um campo cultural onde o sofrimento é visto como algo de uma estranheza alienígena, onde os sujeitos buscam sempre um discurso “científico” generalizante para conseguir suportar e dar algum sentido a algo, paradoxalmente, da singularidade de si; uma muleta discursiva que lhes acene com a possibilidade de encontrar algum sentido de pertinência a um humano visto como mapeado, sabido e com acessibilidade garantida através de alguma palavra-chave de pesquisa no Google...

 

Hoje passamos a crer que com algum incremento de informação, vindo sabe-se lá de onde, possamos nos colocar em algum lugar no campo de descrições sobre o sujeito humano e suas patologias. Acreditamos que os DSM e os CID-10, catálogos internacionais de distúrbios psíquicos tenham, se Deus quiser, algum parágrafo sobre nós.

Nossa patologia passou a ser o critério e marca última, na falta de algo melhor, de nossa singularidade. Agora sim! Sei me definir no mundo, uso tênis e camiseta de tal marca e estou em algum catálogo! Resquícios atuais de uma modernidade que impõe sua marca e suas conseqüências psíquicas.

 

A modernidade ocidental tem sua marcação histórica na Revolução Francesa, em 1789, ponto no qual podemos situar a mudança de certos modos culturais que situam o sujeito humano no mundo. O conjunto da tradição, antes da Revolução Francesa, oferecia um campo de pertinência ao sujeito marcado pela filiação. Filiação a uma casta, uma linhagem, etc...

Importa apontar o fato de que tal pertinência situa o sujeito em uma filiação que o define de forma inequívoca em relação a um passado, tradição essa que espera que o sujeito a reproduza também de modo inequívoco, injunção absolutamente diversa da novidade cultural da modernidade, que tem entre suas máximas a proposta básica aos sujeitos de um constante reinventar-se, de uma não garantia sobre o que os define, colocando-os assim em contato contínuo com um porvir futuro, sempre por ser construído.

 

 

 

A modernidade aposta assim no advento da chamada meritocracia, resultado das possibilidades de intervenção do sujeito, implicado ele próprio, com todo o risco e sem garantias sobre o resultado, sobre o mundo. Tal intervenção tem toda uma nova implicação ética, posta pelo elemento inalienável de aposta que existe na relação do sujeito com aquele mundo, que se apresenta sempre como um porvir mutável pela ação do sujeito...

Assim entramos no campo que desde a antiguidade grega denominamos Ética, essência da ação humana na vida, e que pode nos fazer relevar uma diferença fundamental em relação ao que chamamos usualmente de moralidade, na medida em que esta nos aponta antecipadamente, com garantias, as respostas possíveis às nossas ações. Se você fizer isso, então você é aquilo...

 

Agir eticamente significa um campo de compromisso e responsabilidade antecipados com as respostas futuras possíveis e não previstas do outro e do mundo a nossas ações.

Toda a possibilidade de construção de sentidos para a vida do sujeito humano está sujeita à condição de um pagar o preço da aposta na ação sem garantia, ou seja, àquela essência ética da intervenção humana no mundo. O que podemos retirar da percepção sobre parecermos estar imersos em uma cultura onde nos dizem, de modo subreptício, que podemos nos liberar da angústia de pensar e agir sem garantias, onde podemos criar sentidos para nossa vida sem que nos impliquemos no que o intervir ético nos impõe?

 

À conseqüência psíquica de nossa demissão da grande e angustiante tarefa de busca de criação constante de sentidos para nosso estar no mundo podemos, sem dúvida, chamar de tédio, enquanto resultado de nosso engajamento na busca paralisante de uma vida onde a vivência da angústia, do risco da condição humana, foram trocados pelo financiamento de um liquidificador novo...

 

 

 

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