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A DOR E SUA PRESENCA NO PSIQUISMO HUMANO

 

 

Falar sobre a dor, circunscrever sua presença e importância na dinâmica psíquica humana não é tarefa das mais fáceis, pelo paradoxo de que os campos de dor implicam certa impossibilidade de se falar sobre eles, na medida em que implicam um certo refluxo narcísico do sujeito, paralelo ao cuidado com a ferida que nos faz procurar com que nada a atinja. Assim, tudo se passa como se aquilo que nos fizesse precisar gritar também nos impedisse...

 

Com a idéia de refluxo narcísico me refiro ao aspecto de impossibilidade de busca desejante em relação ao mundo posto pela dor. Ela impõe uma inflexão do desejo rumo a uma espécie de restauração de algo, apagar o tempo e figurar a experiência de uma eternizacão nostálgica de um lugar anterior ao suposto dano que nos separou de tal estado.

O desejo, enquanto lógica / matriz interna das emoções do sujeito humano constitui, no mesmo movimento sempre renovado, representações de si e do outro, dos objetos no mundo. Dessa forma, a busca desejante tem sempre o caráter de elaboração e mitigação do que em psicanálise é concebido sob o conceito de luto primordial. Ao que se refere, em última instância tal conceito?

 

 

 

À impossibilidade de uma fusão do sujeito com uma imagem de si-mesmo. O luto primordial aponta para o momento fundante da dinâmica do desejo humano e seu direcionamento na busca de relações com o outro, na medida mesmo em que a perda a que o luto se refere é a perda de si-mesmo.

Podemos vislumbrar aqui a profunda importância psíquica da presença do outro para o sujeito humano. Por sua via o movimento do desejo sempre aposta em uma elaboração do luto primordial, marca e dor constituinte da fresta entre nós e nós mesmos... Assim começamos a perceber a presença da dor no núcleo mesmo dos andaimes que constroem o edifício singularíssimo da subjetividade de cada um de nós.

 

Na experiência da vida bem como também no percurso psicanalítico, a consciência experimenta algo daquela impossibilidade; enquanto consciência atravessada pelo desejo sob a forma de todo um roteiro específico e repetitivo de emoções, bem como enquanto consciência que busca apreender algo de si, enquanto objeto a ser refletido.

Com essas considerações, procuro apontar para o fato da dor como elemento estruturante e não apenas eventual na vida psíquica, condição fundamental do aparecimento do sujeito como ser desejante.

 

A escritora dinamarquesa Karen Blixen, em uma frase lapidar, aponta para os efeitos que buscamos na psicanálise em termos do encaminhamento simbólico da dor: “Todas as dores são suportáveis quando podemos contar sobre elas uma estória”. Podemos então nos perguntar o que opera no sentido de uma dor que imobiliza e congela o sujeito, que traz um profundo refluxo narcísico do desejo para sua órbita, tirando sua apetência em direção ao outro e ao mundo.

O paradoxo da ação da dor psíquica começa a ficar mais claro se marcarmos dois aspectos de sua presença: marca da uma perda fusional imaginária de um lugar, perda que instaura a busca pelo outro, marca de uma falta, fissura em nossa relação conosco mesmo; enquanto marca desse luto cria um campo gravitacional para onde tende a retornar o desejo em suas reiteradas tentativas de restauração daquele lugar fusional.

 

A forma poética que nos diz da “dor e delícia de ser o que é” ilustra muito desse paradoxo; a atração que a dor exerce sobre o desejo de restauração narcísica de si...

A possibilidade de encaminhamento simbólico da dor é fundamental no sentido de não permitir o congelamento do sujeito em seu campo. Nesse processo a experiência com o outro tem, como disse, a marca de repetição e tentativa de mitigar algo de um luto estrutural. Tal encaminhamento decide sobre a perspectiva sintomática do sujeito na tentativa de lutar contra a dor, sintomas cujos sentidos o conjunto dos estudos em psicossomática procuram mapear.

 

Em um campo cultural contemporâneo onde percebemos dificuldades importantes, no que tange ao oferecimento de espaços que suportem a singularidade do sujeito, não nos devem surpreender as respostas em termos de sofrimentos mudos, que fazem do corpo depositário de seus impasses abafados. Nesse mesmo campo temos a busca desenfreada de descrições generalizadas de si pelos sujeitos, que candidamente se alienam em qualquer imagem de normatividade que se lhes ofereça e que lhes acene com a promessa de que tem um saber pronto sobre ele em algum lugar.

 

Faz-se assim a abdicação da tarefa intransferível de enfrentamento de nossos enigmas, com o custo da concepção pelos sujeitos de suas dores como azares vindos de Marte, para as quais há sem dúvida algum remédio pronto e que os convença de que não tem nenhuma responsabilidade sobre isso, em suma sobre sua vida e como ele nela se põe.

Sobre o que aqui pudemos marcar sobre a dor psíquica apenas mais uma palavra. O vínculo amoroso se apresenta como a arena por excelência através da qual todo um conjunto de dramas que nos habitam se põem na relação com um outro amado, dramas esses que articulam nossas dores dando a elas um campo simbólico que engloba a figura amada, que é sem dúvida, a marca do amor, lembrança em ato...Tentativa, pela via do objeto, de repetição e redenção da dor.

 

 

 

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