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A DELINQUÊNCIA DOS BEM-NASCIDOS

 

 

Delinqüência é algo que estamos vendo constantemente e infelizmente também aumentando de uma forma que nos desafia a pensar no que em nossa cultura possibilita e favorece tais posturas. Vemos hoje jovens das chamadas boas famílias agindo no mundo com estranha mescla suicida com uma arrogância que a muitos assusta. Parece, ao vermos tais posturas, que os jovens das classes média e alta dos grandes núcleos urbanos no país deixaram de poder ver algo mais que sua procura por certos prazeres financiados por dinheiro fácil promovido por pais que barganham sua culpabilidade e pusilanimidade por um talão de cheques polpudo. “Não me perturbe, te dou tudo”, parecem dizer...

 

Na medida dessa abdicação parental, condicionada pelo que parece uma vergonha em não ter algo mais a oferecer que não sua própria auto-absolvição pela via do talão de cheques, sem poder competir em sua possibilidade de autoridade com a expressão máxima da autoridade contemporânea, qual sejam as celebridades e os chamados experts, os pais parecem ver sua única saída, em sua impossibilidade de acreditar que ainda tenham algo a dizer aos filhos, em uma vulgar busca de moldagem caricatural de si - mesmos como, por assim dizer, adolescentes de última hora. Não tendo mais nada a dizer a acrescentar em uma relação pai e filho, parecem buscar a tentação de uma equalização forcada a quem precisaria algo mais do que uma relação simétrica entre amigos, seus próprios filhos. Pais não são amigos, parecemos esquecer. São bem mais do que isso, ou talvez devessem ser!

 

 

 

 

Dessa forma, o pavimento para o inferno está pronto. Pais ausentes, preocupados em um provimento “material” dos filhos, com os quais sentem não ter mais relação alguma a incrementar que não seja pela via de um aumento de tal provimento, oferecem em sua ausência caminho sem resistência ao grande mercado que tornou a adolescência algo profundamente lucrativo, com suas próprias “demandas” de mercado, demandas que definiriam o jovem em torno de imagens e objetos definidos pela própria mídia que se coloca como o grande catalisador que define o que será o que em tal mercado.

Em um ambiente cultural onde a hipocrisia domina, queremos com todas as nossas forcas que a paz possa existir, mas de maneira alguma pensamos nas complexidades da idéia de justiça. Pedimos que a lei seja respeitada, que a policia atue no sentido de inibir a bandidagem, no entanto não nos damos conta que somos cúmplices de uma delinqüência que começa na fila dupla na porta da escola dos filhos ou no semáforo desrespeitado com “justificativa”, enquanto a insegurança campeia pelas ruas do país...

 

A delinqüência no Brasil começa cedo, quando passamos a acreditar de muitas formas que nossos filhos podem tudo, na medida em que tememos que possam não mais nos amar; acreditamos assim que a melhor maneira para que não sintam que existimos seria nosso sumir completo enquanto autoridade possível para nos tornarmos simpáticos amigos, em uma simetria de relação que acaba por privá-los de algo fundamental, a presença parental. A covardia e cooptação parental ao universo do consumo midiático, na esteira da eterna adolescência, que nos fizeram sem dúvida transferir o que poderíamos dizer aos nossos filhos a um outro, outro midiático que somente se dirige a eles no intuito de vender algum produto.

 

Nesse universo, como nos espantarmos que a delinqüência arrogante dos bem-nascidos comece onde o outro, que não esteja no catálogo midiático do que seja invejável seja automaticamente desprezado. No Brasil parece que o desprezo que atenta contra a vida encontra uma indulgência assustadora, como se justificássemos tal atitude com a postura de pensar que devem ser preservados sempre, futuro que são. Dessa forma vamos sonhando em pedir a Xuxa que nos ajude a cuidar de nossos filhos, não é? Quem sabe ela nos ajude...

 

 

 

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