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COTIDIANO DE MORTE

 

 

Nos tempos atuais podemos nos colocar a questão, na medida em que ainda não nos deixamos tomar pelo cinismo dominante, sobre o que nos colocou cultural e socialmente em um campo de violência inaudito na história do país? Que condições e fatores se articularam em nossa história para que estejamos presentes em vários estudos internacionais e nacionais em posição tão profundamente desfavorável no que diz respeito à violência? Olhando mais atentamente o que está envolvido no fenômeno da violência no Brasil é difícil evitar a perplexidade vinda de uma série de constatações inevitáveis.

 

Percebemos atônitos, que na violência no país nos atravessa certa impressão de um império da banalidade. Nenhuma das grandes questões que alimentam conflitos violentos que conhecemos em outros países está presente na violência tupiniquim. Aqui, matamos por vaga em Shopping Center; tênis e telefones celulares valem vidas... Na roda viva da banalidade da vida, na qual ninguém tem mais qualquer referência sobre como deveria se comportar, para ter algo de uma segurança de não ser ameaçado pelo círculo de horrores dos acontecimentos que desfilam nos meios de comunicação, visando o cidadão ameaçado com fantasmas potentes ligados a angústias primevas de impotência e desamparo.

 

A psicanálise já nos mostrou que o sujeito humano levado ao abismo de seus fantasmas de impotência e desamparo é capaz do impensável. Penso que a violência no Brasil, no seu elemento de banalização completa do valor maior da vida, coloca os sujeitos frente a uma experiência de desamparo que faz do viver cotidiano um torturante esperar, esperar por algo que não conseguimos conceber, mas que nos aparece no corte de nossa angústia de todo dia.

 

 

 

Dessa forma, vamos presenciando hoje que a experiência maior cotidiana de toda uma gama de afetos é o medo, que sempre nos sinaliza com a necessidade compulsiva de sumir desse mundo; de alguma forma nos tornar invisíveis em um canto onde não possamos supostamente ser vistos pelo olhar ameaçador do outro... Afinal, basta existir para ser vítima de algo!

 

O medo estreita a vida e suas possibilidades de vivências. Ele nos promete que nossa vida será melhor se a gerirmos em torno de suas recomendações. O que vamos recebendo dessa promessa é o afunilamento constante de nosso nos colocar no mundo e, paradoxalmente, mais medo... O medo recomenda nos travando, fazendo-nos crer que a vida é somente o que ele nos apresenta, em um enredo cada vez mais fixado em que nossa posição fica parecida com a criança que pergunta após o apagar das luzes do quarto: “o que está acontecendo? ’’

 

Na orfandade do cidadão brasileiro em relação ao como reagir ao, no meu entender, maior problema da sociedade brasileira hoje, e dada a inépcia do Estado no que tange a suas obrigações básicas com sua população, vamos presenciando manifestações derivadas de respostas à angústia de impotência e desamparo, em que o outro vai sendo paulatinamente e cada vez mais percebido como sempre hostil à priori, desencadeando acontecimentos que beiram o cômico se trágicos não fossem, em que a banalização de quaisquer valores ligados à preservação de sua integridade traz a marca de nossos tempos sombrios.

 

 

No Brasil, vamos enfrentando com negligência assustadora um problema que em si mesmo já é o entroncamento do toda uma série de outros em que a precariedade institucional do país se mostra em sua face mais cruel, em que a violência aparece não somente no que facilmente a reconhecemos, mas também nas relações cotidianas em que a instrumentalizacão do outro é uma constante na vida cultural, criando nos sujeitos uma apreensão de superfluidade do valor humano de si mesmo. Podemos morrer a qualquer hora! Mortos já de alguma forma, conquanto paralisados pelo pacto com o medo...

 

 

 

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