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DO AMOR E SEUS DESTINOS 2

 

 

No texto anterior, busquei dar um olhar panorâmico sobre o amor na contemporaneidade. A experiência amorosa tem hoje uma especificidade marcada por toda uma série de problemas, ligados a nossa possibilidade de encaminhamento simbólico de nossas vivências emocionais.

 

Quando, em psicanálise, nos referimos ao ser humano como atravessado pela linguagem, estamos apontando que nosso psiquismo é uma trama complexa, uma matriz geradora de significações que se articulam internamente, dando lugar e importância emocional ao conjunto de experiências que constituem nossa relação com o mundo, com o outro.

Assim, a psicanálise nos mostra que os fios que nos ligam ao outro, ao amado, são inconscientes para nós mesmos, absolutamente singulares no lugar em que o colocam em nossa vida emocional.

 

No amor, todo um conjunto de relações que temos com os fantasmas que nos habitam são postos em ato pela via do outro amado, pondo-o na condição de uma espécie de testemunha de minha história. Assim, o sentimento exposto muitas vezes sob a expressão “parece que sempre te amei” corresponde a bem mais que apenas uma figura de retórica. O amor nos implica, na medida mesmo em que, na atualização de toda uma história, de todo um drama que nos atravessa, é uma espécie de lembrança em ato de aspirações, buscas, impasses, boicotes, que marcam nossa forma única de relação frente a alguém posto em lugar de “nunca te vi, sempre te amei”. Lembrança em ato, no sentido de algo que nos coloca, à maneira de um sonho, dentro de uma cena inconsciente à qual respondemos sempre quando amamos.

 

 

 

Sabemos a grande gama de afetos, frequentemente contraditórios, que nos tomam quando estamos dentro de nossos enredos dramáticos inconscientes postos a baila no amor; sabemos da impossibilidade de definir a nós mesmos o que se põe através do sentimento pelo outro. De todo modo, percebemos de modo inequívoco que existem em nós condições inconscientes que marcam por onde alguém será eleito como amado; sabemos que não podemos amar qualquer pessoa a qualquer tempo e de qualquer modo.

 

Não poderia ser diferente, na medida em que, dentre outras coisas, o inconsciente que nos habita integra o que podemos chamar de nosso sistema de ideais, que regem pela nossa falta nossas aspirações, de forma que no amor amamos a promessa que a presença do amado nos faz no que tange a uma busca de completude, lugar onde o desejo, suas exigências e impasses, deixariam de nos colocar frente a certo mal-estar, uma dolorosa mensagem interna que nos diz que não somos iguais à imagem narcísica que temos de nós mesmos.

 

No amor, este irredutível estranho em nós se põe na experiência amorosa do sujeito humano, mostrando paradoxalmente que ali, na promessa de completude, existe a marcação simbólica de que aquilo em nós de mais íntimo, o inconsciente, em última instância de nós se furta, se escondendo no mesmo movimento em que se mostra na vivência do amor, trazendo assim no amor aquela profunda impressão de fascinação enigmática que sempre o caracteriza para o amante. Dessa maneira, a beleza da pujante experiência de transcendência de algo de si através da relação amorosa.

 

 

 

O caráter de transcendência de si no amor encontra amparo no sistema de ideais que, por assim dizer, escolhe o ser amado, em torno da lembrança em ato do que poderíamos ter sido e de alguma forma podemos ser pela via do amor ao outro.

 

Podemos então, a partir da detecção de uma experiência de transcendência de algo de si no amor, pela colocação do ser amado em certo lugar em nossos ideais, nos perguntarmos qual o valor psíquico hoje da experiência amorosa, e qual relação disso com mudanças importantes em curso em nossa constituição e relação com os ideais.

 

 

 

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