INSTITUTO ESFERA

Rua Amador Bueno, 1300, Centro

Ribeirão Preto - SP | (16) 3625-0656

Please reload

DO AMOR E SEUS DESTINOS 3

 

 

Em meu último artigo, finalizei levantando o problema do papel de nosso sistema de ideais no campo do encontro amoroso com o outro.

Como sempre temos a tendência a esquecer o óbvio, sem dúvida é bom lembrar que o amor envolve a presença do outro...

 

Por que vias este outro é, por assim dizer, escolhido, no sentido de ser elencado enquanto presença amorosa em nossa vida emocional, é uma questão importante que aponta para o papel em nosso psiquismo da ação dos nossos ideais.

Importante apontar que nossos ideais estão para muito além do que podemos dizer explicitamente deles...

 

O sistema de ideais humano articula registros de tempos diversos, presentes no psiquismo simultaneamente em nosso atual viver emocional, e os articula de uma forma não propriamente cronológica, na medida em que estamos pensamos no tempo, mas sim logicamente, em seu nos constranger a determinado tipo de relação com o outro, colocando-o em uma importância absolutamente singular na enorme teia de significações que constituem nosso psiquismo.

 

Na medida em que nosso outro amado “diz” de nós, na medida em que esteve de alguma forma presente em nossos sonhos e pesadelos sem que soubéssemos, na medida em que assim o sentimos, esta vivência atordoante é efeito dos muitos tempos simultâneos atuantes em nossos ideais que condicionam sua escolha.

 

 

 

Os nossos ideais sem dúvida, em nossa experiência psíquica, apontam para o tempo futuro, mas em sua ação atuam agora, sempre, articulando o que desse futuro projetado se afigura como uma espécie de tributo ao nosso passado, esse desconhecido...

Nosso passado, nosso (des) conhecido, não diz respeito ao conjunto de fatos que podemos com facilidade descrever, enquanto algo que nos dá garantias de que sabemos do que estamos falamos quando falamos de nós mesmos, mas de algo aparentado a um sonho que nos habita. Algo que nos envolve e circunda sem nos darmos conta, sonho que sonhamos acordados, posto no encontro amoroso.

 

Nesse sentido, nossos ideais apontam para algo no futuro que desconhecemos, mas que é marcado por traços que reponham algo de um passado sempre presente. Assim, em outras palavras, na morada de nossos ideais se põe toda uma série de grandezas e misérias que constituem o que acreditamos ter sido e o que sonhamos poder ser, conteúdos esses absolutamente entrelaçados entre si, em nossa vivência atual.

 

Na relação amorosa, sem que percebamos, fazemos sempre todo um conjunto de apostas, esperanças ligadas à imagem de um futuro que é mediada pelos nossos ideais. Aposta, porque nunca temos garantia de por onde o encontro com o outro nos levará, imprevisível que é, mas isso não nos impede de acreditar que o outro nos trará algo de “para sempre perdido”, marcação de uma espécie de solidão muda que nos acompanha...

 

No amor há sempre o convite para um atravessar os impasses que acompanham os desejos que nos habitam e que, em resposta a eles, construímos o que somos.

É um convite a sair de si. Um convite a aquele estranhamento de si que mencionei no último artigo.

 

O que significa esse sair de si? Há algo no amor ao outro que possue a propriedade de nos retirar de um certo destino que acreditamos inconscientemente ter de cumprir em nossas vidas. Demitir-se de um destino...

 

Tudo isso se torna ainda mais enigmático, quanto mais temos em conta que somente quando o outro amado aponta para uma possibilidade de redenção ao sujeito de um destino repetido, inscrito no passado, que algo do sofrimento temido e acariciado que o amor nos traz pode nos mostrar algo de seu poder de mudança.

 

Para um próximo encontro podemos nos perguntar o que o sofrimento amoroso tem em si, simultaneamente, de repetição e possibilidade de mudança de destino.

 

 

 

Please reload

deixe seu comentário abaixo