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A CULTURA DO ENTORPECIMENTO

 

 

Estamos nos defrontando hoje com um campo cultural que nos oferece mostras nos sujeitos de tendências psíquicas bastante preocupantes. Gostaria de apontar algo deste campo bem como de por onde penso estarem apontando, em termos de sofrimento psíquico, essas tendências.

 

Parece que estamos vivendo sob a égide do que podemos chamar de cultura do entorpecimento, sendo que o gigantismo da indústria montada com esse fim deixa com vergonha a das armas, do petróleo e outras mais. O empreendimento cultural entorpecedor compreende toda uma série de atividades culturais, cujo objetivo maior se situa na busca sempre renovada de criação nos sujeitos de uma crença em sua suposta incapacidade de intervenção no mundo. A resignação cínica, com seu correlato de futilidade da existência de si é o corolário da cultura do entorpecimento, que tem em uma certa neurose de domingo um bom representante...

 

 

 

O efeito psíquico da experiência de irrelevância de si é aqui absolutamente patente, trazendo nesse bojo toda uma lassidão da vontade, negligência em relação a si mesmo e patente descompromisso com o mundo, paralelo à idéia de que nada adianta, nos levando a uma postura de encolhimento em nosso estar no mundo, efeito criador da postura que já mencionei aqui como a “atitude de turista”, que vê o outro e o mundo como uma eventualidade, espetáculo que passa...

 

Dessa forma contamos com todo um arsenal que leva a tal objetivo, arsenal que inclui itens de consumo desenfreado na modernidade, tais como a adesividade a drogas legais e ilegais; programas midiáticos que fazem do terror do mundo mercadoria; próteses para o corpo cuja promessa de eternizacão, imobilidade de si no tempo e na vida não pode se cumprir; todo o conjunto do que venho apontando como o ideal de felicidade sensorial que marca nossos tempos, em que os sujeitos se perdem na busca insana de uma relação com o outro e com o corpo próprio marcada pela obsessividade da procura de uma estimulação que não pode cessar, na medida em que pela primeira vez fazemos o experimento social temerário de equalizar felicidade e prazer. Esquecemos assim que o prazer é fugidio em si mesmo, não podendo sustentar portanto qualquer projeto de felicidade, que em outros tempos sempre foi relacionado à presença e à busca de transcendência de si através da relação como o outro.

 

Na cultura do entorpecimento, os sujeitos se comportam sempre como credores do outro e do mundo. Eterno credor de um prazer que lhe é passado como de direito; se ainda não possui é porque alguém lhe negou...

 

 

Ficamos assim com a imagem de um sujeito submetido a uma lógica cultural onde parece crer que em algum lugar existe uma grande festa para a qual não foi convidado; que se souber e obedecer aos ditames que podem pavimentar o caminho que levam à chamada vida invejável, possa se oferecer ao imenso circuito das imagens sedutórias que constituem as últimas autoridades da modernidade, as celebridades, autoridade paradoxal na medida em que nada aquilo que constitui qualquer autoridade, uma certa autorização do passado. A celebrizacão moderna se constitui na negação mesma de qualquer tempo, de qualquer história, de qualquer passado ou imagem passível de ser elencada para o futuro.

 

Invejada na medida em que é imaginada como não passando pelas coisas desse mundo, a celebridade ocupa um lugar fundamental na cultura do entorpecimento, ícone buscado do que parecemos desejar, não estar mais no mundo. Estranho paradoxo, em que se buscam coisas desse mundo para não mais passar por ele...

 

Em outra oportunidade, discutiremos com mais vagar a presença do outro no ambiente da cultura do entorpecimento, na qual todos os elementos desejados o são na medida em que podem nos livrar dessa estranha presença, o outro em sua inapreensível diferença...

 

 

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