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A ARTE DO ENCONTRO

 

 

Como nos ensinou o poeta Vinicius de Moraes, apesar dos desencontros a vida é a arte do encontro.

 

O que podemos depreender disso se entrarmos um pouco mais no campo de significados dessa expressão? Nos encontros se trata de encontrar o que?

 

Importante lembrarmos que nossa subjetividade é fundada e constituída dentro de um ambiente de relação com a presença do outro. Essa presença se põe em nosso psiquismo através da inserção de traços desse outro que irão moldar e integrar o que podemos chamar de enredos da dinâmica de nosso desejo, o imenso universo do que media nossa relação com o outro, consigo mesmo e o mundo, as fantasias...

 

As fantasias inconscientes mapeiam o caminho por onde nosso desejo caminha, colocando-se em ato através do encontro com o outro, ou melhor dizendo com algo do outro, algo que de alguma forma pôde ser cooptado em algum lugar no universo das fantasias.

 

Os gregos no diziam do agálma, algo de mim no outro, algo do outro que pode dizer algo de mim para mim, pela via amorosa. O amado sempre é depositário de algo da ordem do agálma, colocando o outro em um estatuto de valor que somente é possível na medida em que pode ser inserido no complexo campo de fantasias inconscientes do sujeito.

 

A partir dessas considerações podemos voltar a nossa questão inicial: o que encontramos nos encontros e, por que não dizer, de muitas formas também nos desencontros?

 

A idéia de uma completude de si no encontro com o outro amado permeia todo o imaginário cultural romântico, onde o sujeito teria a experiência de assim não mais desejar, dado que a plenitude envolve uma idéia para mais além da mera satisfação do desejo. Trata-se do imaginário de um lugar alcançado pela via do amor onde o desejo, e não sua mera satisfação, simplesmente não existam.

 

 

 

Lugar nostálgico de fusão consigo mesmo onde o outro, que é sempre tributário do fato psíquico da existência do desejo, não mais teria presença e o que ela significa em termos de falta, buraco na plenitude, para o sujeito.

 

No encontro amoroso parecemos buscar esse lugar de plenitude, onde não precisaríamos mais desejar a varinha de condão de satisfação de todos os desejos, mas sim o lugar onde a própria palavra desejo não mais tenha sentido...

 

Será isso que encontramos nos encontros e desencontros da vida? Talvez possamos pensar que algo do fascinante nos encontros recomendados pelo poeta se ponha no equívoco que constitui o cerne do fenômeno amoroso, onde buscamos no outro a experiência de uma plenitude e encontramos como que de surpresa algo diferente, diferença de experiência que acentua nossa subjetividade e seus impasses, não a dissolvendo no líquido nostálgico e mortífero da sonhada fusão consigo mesmo.

 

Somos nostálgicos do que nunca tivemos. Para que tenhamos algo é necessário que a palavra ter possa ter algum sentido e para isso é fundamental que tenhamos sido subjetivados, atravessados pelo campo simbólico da cultura com tudo que esse fato psíquico implica em termos de nossa inauguração enquanto seres desejantes...

 

Em nossa miséria neurótica buscamos reiteradamente nossa negação enquanto ser desejante, e assim tornamos a experiência amorosa uma verdadeira batata quente em nossas mãos tanto mais quanto mais a desejamos; estranha armadilha, conquanto o amor e o encontro sempre envolvem a experiência complicada frente ao ridículo de si, como já nos apontou mais de uma vez Fernando Pessoa.

 

A sustentação da experiência do ridículo de si é fundamental no sentido da possibilidade de vivência amorosa, experiência que nossa neurose deplora e parece buscar trocar a possibilidade de encontro com o outro pelo encontro com o estranho de seus sintomas. Encontro às avessas onde o risco do amor não se encontra porque não mais encontramos o outro.

 

 

Sabia que para encontrar e amar, o outro é fundamental?...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luis Henrique Milan Novaes é psicanalista, professor do Curso de Formação Psicanalítica, coordenador e fundador do Núcleo Tavola, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática-Regional Ribeirão Preto e membro do Departamento de Psicossomática do Centro Médico de Ribeirão Preto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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