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O QUE VOCÊ TEM A VER COM YOGA?

 

A reflexão que gostaria de trazer neste texto vai muito além da prática física de asanas (posturas de yoga) e dos benefícios que esta nos proporciona. Sabemos – ou melhor, experimentamos e sentimos na pele –  que abrir nossos mats (tapetinhos de yoga) e praticar uma sequencia de posturas e exercícios de respiração nos leva a um bem-estar psico-fisico, a uma sensação boa de contato com nós mesmos, a uma certa paz, tranquilidade e bom humor. Sabemos também dos inúmeros benefícios que as posturas oferecem a nossa saúde, fortalecendo nossa coluna, desenvolvendo vigor e tônus em nossos músculos, promovendo flexibilidade, equilibrando todos os sistemas de nosso corpo (nervoso, circulatório, digestivo, imunológico, respiratório...).

 

Quando somos iniciantes na pratica de yoga, muitas vezes são estes fatores que nos mantem assíduos nas aulas e cada vez mais disponíveis física e mentalmente. Mas com o tempo percebemos que tudo isso é apenas uma pequena degustação dos milhares de sabores que a Yoga nos oferece gratuita e constantemente.  

 

Contudo, precisamos nos lembrar que praticar yoga não significa abrir o mat e fazer posturas. Yoga é universal, não se limita aos momentos de concentração e esforço físico requeridos pelos asanas. Yoga já existe na sua vida desde sempre, e permeia sua natureza continuamente. Mesmo que a gente não tenha se dado conta, yoga está em tudo. Algumas pessoas não executam os asanas, mas praticam yoga mais profundamente do que muitos praticantes de posturas.

 

Quem leu o artigo publicado aqui no dia 3 de Setembro, "Conheça a ética do Yoga" e se familiarizou com os conceitos dos yamas e nyamas, talvez tenha percebido o que estou tentando dizer. Yoga está em cada momento da sua existência: no modo como você recebe seu primeiro pensamento pela manhã, na maneira como você trata seu funcionário, seu porteiro, seus pais, seu chefe, seu amigo, um mendigo, ou aquele parente que você acha chato. Na postura com a qual você recebe uma má notícia. Na maturidade com a qual você encara os erros dos outros que acabaram ressoando em você. Na tolerância com pequenos infortúnios que por vezes ocorrem em cadeia em um mesmo dia. Na qualidade da sua respiração. Na sua capacidade de perdoar. Na sua atitude em dizer uma verdade, mesmo que inconveniente. Na sua postura em relação a si mesmo: escolhas, hábitos, disciplina, força de vontade, auto-cuidado...

 

Mas muitas vezes assim que começamos a pensar nessas coisas nossa mente já vem "dando pitaco" e nos distraindo do que realmente importa...  "Ai, mas vai ser muito difícil mudar", "Até concordo, mas disso ou daquilo eu não abro mão!", "Não preciso ser radical, posso me dedicar só de vez em quando", "Mudar nessa fase da minha vida não vai dar certo, mais pra frente eu penso nisso" e por aí vai... Natural, pois todos nós temos diversos mecanismos de defesa para não precisarmos encarar mudanças que a principio nos tirarão de nossa zona de conforto. Muitos de nós tem dificuldades inclusive em reconhecer que nós mesmos criamos a situação na qual estamos hoje, que nós mesmos somos responsáveis pela nossa felicidade ou infelicidade com nossas vidas atuais. De fato, em meio a um mundo tão repleto de vícios e virtudes, de pressões e imposições, de comparações e competições, de estereótipos e preconceitos, fica realmente difícil sentir a fonte inesgotável de paz e de felicidade que está aqui dentro da gente o tempo todo, disponível, esperando que a gente decida dar o primeiro gole. E apesar de praticar asanas não significar praticar yoga, a prática regular facilita imensamente no despertar deste centro de força e sabedoria.

 

Quando estamos em momentos de grandes dificuldades, qualquer micro problema toma proporções grandes e nos chateia muito mais do que deveria. Mas quanto mais regularmente praticamos, mais fácil fica perceber nossas auto-armadilhas mentais, nossas dificuldades e fatores que nos desequilibram, nossos ciclos viciosos, e consequentemente, fica menos difícil escapar deles. A prática regular parece acender uma chama fortíssima que nos traz uma clareza mental sobre nossa situação e o que nos rodeia, que tudo fica muito mais fácil de ser aceito, de ser alterado, de ser transformado sem sofrimento, mas com alívio e amor. Uma luz se acende deixando tudo mais nítido, mais simples. E você percebe o quanto pode ser leve uma transformação tão profunda! Você passa a compreender a impermanência das coisas com uma serenidade indescritível. E a vida fica muito mais simples do que a que a gente costumava viver.

 

Durante quase uma semana inteira sem praticar devido a um trauma no calcanhar após um treino de muay thai, tive a oportunidade de mais uma vez observar, sentir e reconhecer a diferença concreta em meu estado mental por meio da pratica regular. Praticando diariamente a pouco mais de um ano, muitas vezes me peguei considerando "tranquilas" situações que outros vivenciavam com muita dor. Alguns dias sem praticar, pude sentir nitidamente uma dificuldade em ver, perceber as coisas, as situações, em lidar com meus pensamentos e emoções. Foi como se o sol tivesse se posto, e tudo ficou mais difícil de observar, tudo parecia um pouco mais sombrio ou ameaçador, uma certa insegurança foi se aconchegando, a espontaneidade foi se afastando, um brilho quase se apagou. Poucos dias sem praticar e fiquei mais irritada, mais impaciente, menos tolerante. E percebi então como a prática efetivamente me ajudou de modo concreto a acalmar minha mente, a manejar pensamentos disfuncionais, a controlar impulsos destrutivos, a ter discernimento para saber o que me faz e o que não me faz bem, e a viver com o coração tranquilo.

 

E mais do que nunca ficou muito claro, para mim, a função do mergulhar tão profundamente na execução dos asanas. E essa "redescoberta" me fez retomar as práticas com ainda mais entrega, mais motivação, mais disponibilidade, mais coração. E é essa energia que devemos evocar nos momentos de preguiça, de ócio, ou de desânimo. Ajuda se nos lembrarmos que nosso corpo é nossa ferramenta para experimentar o mundo, e a única "coisa" que estará com a gente do momento em que nascemos até o momento de nossa morte. É por meio dele que vamos sentir, fazer, dizer, crescer, aprender, acontecer. Assim, quanto melhor cuidarmos de nosso corpo, mais qualidade teremos em qualquer atividade que estivermos vivenciando. E então podemos perceber que a partir do corpo podemos alcançar muitos outros níveis de transcendência. Mas ele sempre será nosso ponto de partida.

 

E voltando a universalidade da Yoga, talvez agora fique mais fácil ligar os pontos. Este bem-estar provindo do autocuidado gera infinitas reverberações. Você se sente bem com você mesmo, naturalmente fica mais tolerante, mais compassivo, mais compreensivo... além de sua atitude mudar, isso tudo também é sentido, a nível energético, pelas pessoas que estão a seu redor, que passam a refletir em você aquilo que você projeta nelas. E as coisas na sua vida vão se encaixando, o fluxo das coisas começa a se alinhar com suas intenções, e tudo parece ir entrando no eixo. E sem que você perceba, está ativamente contribuindo para a evolução daqueles que estão ao seu redor, e consequentemente para construção de um mundo mais consciente e pacifico. E a cada momento você sente a conexão que existe entre tudo e cada um de nós, percebendo que tudo está inserido na mesma Ordem, em uma inteligência divina que ultrapassa os limites de nossa compreensão racional.

 

Não importa se você vai encontrar essa serenidade por meio de asanas, de natação, dança, kung fu ou qualquer outra atividade. O importante é que você encontre alguma coisa que te faça perceber o quanto de paz e felicidade você pode experimentar se conectando com o que há dentro de você, e o quanto você pode tomar as rédeas da sua vida. Se você já identificou qual é essa coisa que te faz sentir bem, genuinamente sereno, não deixe de praticar essa atividade. Mergulhe nela. E depois, deixe que ela vaze para todos os outros aspectos da sua vida. Ou melhor, perceba que ela sempre esteve lá!

 

Namaste!

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